Pode-se dizer, de uma forma muito sucinta, que a “Web 3”, expressão usada pela primeira vez em 2014 por Gavin Wood[1], representa uma verdadeira mudança do atual paradigma da web, baseando-se na premissa da descentralização para, transferir para as mãos dos utilizadores, grande parte do poder que está hoje nas mãos das grandes empresas tecnológicas.
Com efeito, com o início da web como hoje a conhecemos, a chamada “Web 2”, esta tem estado ligada às empresas que, em “troca” dos conteúdos que disponibilizam aos utilizadores, se apropriam dos seus dados para lhes “vender” produtos, serviços e experiências, mas também ideias e comportamentos que muitas vezes os próprios desconheciam poder adotar, mas que os algoritmos sabem explorar até ao mais ínfimo detalhe, municiados pelas enormes bases de dados detidos pelos gigantes da internet.
Ora uma das principais mudanças da “Web 3” passa precisamente por este aspeto, ou seja, pela desnecessidade da intervenção de um intermediário no processo, passando a informação a estar armazenada de uma forma descentralizada (o que dificulta a criação de grandes bases de dados como hoje existem), recorrendo para o efeito a protocolos como o IPFS[2], bem como à tecnologia blockchain, sendo na maioria das vezes os projetos desenvolvidos em “open source”, garantindo-se assim uma total transparência. Outra das grandes características é a verificabilidade de tudo através de criptografia, o que permite nomeadamente verificar a validade de transações e a fidedignidade de conteúdos.
Espera-se que, com a “Web 3”, seja possível solucionar uma das atuais grandes preocupações dos utilizadores da internet, especialmente dos mais esclarecidos, que se prende com a privacidade, segurança, utilização e exploração dos seus dados pessoais, quer seja pelas “big tech” que atualmente os centralizam, quer seja por outras entidades e organizações que adquirem os mesmos, utilizando-os para manipularem grupos e mesmo até eleitores, colocando dessa forma em sério risco o sistema democrático.
Na “Web 3”, por meio de “smart contracts”, qualquer acordo é automaticamente executado, tudo isto sem a necessidade de um intermediário, o que dificulta a recolha dos dados, passando o utilizador a ter um maior controlo dos mesmos, competindo-lhe a ele a decisão se vai ou não monetizá-los e de que forma, podendo mesmo ser pago, através de “tokens”, por navegar na internet e por ver anúncios.
Se é certo que muitos dos mais acérrimos defensores da “Web 3” veem-na como uma forma de corrigir alguns dos atuaís problemas da internet, importa não esquecer que, como todas as novas tecnologias, há sempre um grande caminho a percorrer, não sendo este caso diferente. Na verdade, a “Web 3” ainda se encontra numa fase bastante inicial, sendo que vários projetos que estão a ser desenvolvidos nesta área, não são verdadeiramente descentralizados e outros que pretendem ser mais fiéis ao conceito enfrentam vários desafios.
Na verdade, apesar de já estar a ser adotada por utilizadores com elevados conhecimentos técnicos, até que a “Web 3” possa ser adotada em larga escala, grande parte destes desafios terão necessariamente que ser solucionados, nomeadamente questões que se prendem com a complexidade da maioria dos aplicativos descentralizados, os quais exigem conhecimentos bastante especializados para interagir com os mesmos.
Por outro lado, também ao nível da escalabilidade do serviço e das formas de monetização, para incentivar os desenvolvedores dos produtos, colocam-se alguns desafios. Tudo isto sem falar no que se reporta a questões como a regulamentação, a harmonização dos ordenamentos legais e governança das organizações que desenvolvem projetos na “Web 3”, áreas que parecem cada vez mais captar a atenção dos responsáveis políticos.
Estou certo que ainda é longo o caminho para que a “Web 3” seja uma realidade de adoção em larga escala, mas estou igualmente certo que este caminho que foi iniciado não tem retorno e que esta será, mais cedo ou mais tarde, uma realidade totalmente generalizada.