“DeFi (Decentralized Finance)”, é o nome dado ao conjunto de produtos e serviços financeiros, disponibilizados com recurso à tecnologia blockchain. Através de “smart contracts” é assim possível a disponibilização de diversos produtos financeiros como seja, a título de exemplo, sistemas de pagamentos, transações financeiras e empréstimos, sem a intervenção de um intermediário, como acontece habitualmente nos mercados financeiros tradicionais em que existe a intervenção de uma entidade financeira.
No sistema financeiro tradicional, caso necessite de um empréstimo, recorre a uma entidade bancária (o intermediário) que faz a ponte entre quem quer contratar o empréstimo e quem disponibiliza o capital (no caso os depositantes), sendo esta remunerada por essa intermediação. Na “DeFi”, uma vez que a ponte entre quem pretende contratar o empréstimo e quem pretende disponibilizar o capital é feita automaticamente por um “smart contract”, não se verifica a necessidade de qualquer intermediação, sendo na verdade essa a grande revolução, a desnecessidade de ter que confiar numa terceira parte, seja ela um banco ou o estado. É precisamente esse o motivo pelo qual os devotos da tecnologia referem-se à “DeFi” como o futuro dos sistemas financeiros.
A base da “DeFi” são os “smart contracts”; que correm em diversos ecossistemas, como seja a Ethereum (ETH)[1] (a maioria), Solana (SOL)[2] e Avalanche (AVAX)[3]; sendo estes, “smart contracts”, programas autoexecutáveis que permitem a criação de aplicações na blockchain, pretendendo-se dessa forma a criação de um sistema financeiro que funcione a nível global de uma forma mais independente, transparente, desburocratizada, acessível a todos e que ao mesmo tempo seja mais eficiente e barato que o sistema financeiro tradicional.
As aplicações “DeFi”, usualmente designadas “DApps”, abrangem um enorme leque de produtos e serviços financeiros, nomeadamente, “Exchages Descentralizadas (DEX)” e “protocolos de lending” e CDP.
As “DEX”, das quais a Uniswap[4] é um exemplo, contrariamente à Coinbase e Binance que são Exchanges centralizadas (“CEX”), são aplicações utilizadas para permitir a compra e venda de tokens, sem a intervenção de um intermediário, sendo as operações feitas diretamente, através de “smart contract”, entre os utilizadores, no modelo “peer-to-peer”.
Por outro lado, os “protocolos de lending”, são plataformas que permitem a realização de empréstimos em criptomoedas, sendo, atualmente, a Aave[5] um dos principais “protocolos de lending” e CDP. O funcionamento é bastante simples: os detentores de criptomoedas “depositam” as mesmas nas chamadas pools de liquidez, uma vez que estes protocolos, por serem descentralizados, não têm liquidez própria, sendo remunerados através de juros, para que possa ser emprestado aqueles que querem contrair um empréstimo, sendo este um processo muito mais rápido e barato do que um empréstimo no mercado financeiro tradicional.
Na verdade, são várias as vantagens, não só como acima referi o facto de ser mais barato e rápido, desde logo por não existir a necessidade da intervenção de um terceiro para fazer a validação, sendo tudo feito automaticamente através de “smart contracts”, mas também a acessibilidade, uma vez que não existe qualquer limitação territorial ou controlo governamental.
Existem, porém, algumas desvantagens, para as quais deveremos estar bem atentos, sendo uma parte delas inerentes à própria tecnologia, como seja por exemplo problemas ao nível da programação, o que pode resultar em vulnerabilidades e falhas de segurança que podem ser exploradas pelos hackers (apesar de muitos projetos, cientes de tal facto, realizarem auditorias regulares ao código utilizado), e por outro lado outras que se devem à natureza humana, como seja o caso de esquemas e fraudes, que podem ser levadas a cabo muito em resultado de se tratar de toda uma nova área de atividade, ainda sem grande regulação, tudo isto sem contar com a enorme volatilidade que é característica dos mercados de criptomoedas.
Estou certo que o mercado financeiro tradicional não se vai deixar ficar sem dar muita luta, desde logo porque há muitas entidades a ganharem muito dinheiro com as ineficiências do mercado, no entanto creio existir um futuro bastante promissor para as “DeFi”, enquanto mercado mais ágil e acima de tudo muito mais transparente, no entanto, para que isso aconteça, será necessário que exista uma adequada regulamentação, nomeadamente ao nível do branqueamento de capitais, como tem vindo a ser pedido pelo Grupo de Ação Financeira (FATF-GAFI)[6], pois só assim o mesmo poderá ter uma adoção mais generalizada.